Leves passam os dias, o risco
que deixam os corpos
apaga-se frente aos olhos, eu
vejo ou não vejo e penso
perdido o gesto de erguer
a cabeça para a cortada linha
da janela. São as penas
dos pássaros da primavera
isto que desce e vai
cair na luz do dia? Eram
decalcadas manias de brilho
azul voando no quadriculado
da folha e quem no papel
colocava a água não sabia
que os riscos do dia um dia
seriam palavras. Coisas
como os passos na escada
contam o que olho e
por vezes é o rio, sobre
as tábuas da casa há um corpo
que se veste devagar. Começa
por pegar nos sapatos, acaba
no lenço roxo, hesita
em começar tudo de novo. Tem
a cara de quem descobriu
finalmente o assassino e já
não quer saber e já hesita
em começar tudo de novo.
A primeira página, a primeira
peça de roupa, o primeiro
beijo. Leves passam os dias,
o que não aconteceu
é a sua invenção, e há um
homem fingindo meditar. Ele
se pudesse parava o tempo,
tem uma almofada que ajeita,
um joelho que toca e
lhe basta, seguras dúvidas
com que aceita a repetição
das coisas. Corpos e automóveis
passam, cai uma deslocada
folha no meio de março, o lápis
fez geometrias e outras
redes, descobre a utilidade
da pulseira, a ausência
de qualquer anel. Os lábios
ainda com o gosto a café
pedem-me que permaneça, chama
sem fim o número que marco,
os pequenos vidros da garrafa
estão em vez da pena
deixada no ar pelo voo
de um pássaro de primavera,
o homem ajeita ainda uma vez
a almofada. Terá dormido
e sonhado tudo isto? Mas se
as cores não são estas, se
as formas demoram a recompor-se,
a difícil resposta fica
num guardado segredo. Então ele
respira um pouco mais
fundo, parece descansar
de uma luta que não houve.
O cego néon da noite vem muito
depressa, atrasa o dia, erguer
cabeça para a cortada linha
da janela torna-se um desafio,
sem vinte anos debruço
corpo ousando pouco, gestos
de proibição vêm pelo quintal
da infância, o cinto
de uma bata intensamente
branco, uma carteira de recados
atravessados por setas.
Fácil seria no vestido da mãe
pensar os dias, o rosto
no colo, a salvação inútil.
Altas paredes de mercado
tapavam a luz do dia, ficava
a silhueta de um solícito
ajudante transportando o cabaz
ou o jornal, um contador
de histórias chamava-me
para a sua beira e o tempo
começava a parar. A quem está
pergunto agora se sabemos
quem somos e cresce
pelas esquinas da casa o risco
dos dias. Vem das palavras
a alterada posição das coisas,
vem cair ao pé do corpo
o último desejo. Leves passam
os dias, nada mais
se dirá, leves passam os dias.
Helder Moura Pereira
Para Não Falar
Círculo de Poesia
Nova Série
Moraes Editores
1986
|