Quando a cabeça tomba para trás e suavemente repousa no ar
como se repousasse num regaço, de uma avó, de uma coisa assim,
lembra-se de pormenores dos filmes do cine-clube, ninguém
tinha reparado nos traços de um jacto atravessando os céus, podia
lá ser, no tempo do quixote da mancha. Este miúdo vai longe.
Quando a inequívoca fotografia diz que não é mentira seres tu
o único que não ia descalço à escola, não diz senão isso. Os rostos,
todos, muito sérios e tristes, olhavam para um ponto distante
por trás do fotógrafo, de nós só aquilo restaria, aquele momento
que sempre nos disseram ter acontecido. E deve ter acontecido,
embora, olhando bem para mim não vislumbre nada de mim. .
Não se notaria nenhuma diferença se eu fosse outro nesta fotografia
ou se aqueles rapazes estivessem todos calçados, se naquele tempo
nos perguntassem o que era o amor, apontávamos para cima, onde estavam
os pais, era uma pergunta difícil, talvez eles soubessem responder.
Éramos companheiros com os braços por cima uns dos outros para a escola
e quando um lagarto se assanhava à nossa frente ninguém se assustava.
Helder Moura Pereira
LÁGRIMA
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim
2002
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