Vestia um vestido de bailarino quando, logo ao segundo dia,
trocando cêdês e livros de poesia, me declarou a sua amizade.
Passávamos tardes inteiras a discutir fantasmas, asmas,
histórias da infância e coisas da beleza grega e pós-moderna.
Dou graças por viver em tempos de correio electrónico, arrumo
tudo nas pastas e depois não há provas. Nunca mais se sentirá
o cheiro do fogo queimado, as folhas negras, o prazer do fósforo.
Num rápido gesto tudo para sempre apagado e a minha memória.
dura o tempo de uma tecla, nem de versos se vai lembrar.
Mas quando o amigo, enfim, cansado de eu não lhe ligar, decide
pôr tudo em pratos limpos, eu coro de vergonha porque
amizade para mim não tem de ser ir para a cama. Isto que toda a gente
sabe fora dos poemas faz tremer a minha mão pelo lado do vulgar.
Andaste por beja, braga, bordéus e alexandria a engatar marinheiros
e eu aqui, gostando de ti, com saudades de ti, mandando-te dinheiro.
Uma vez por outra ia também um poema, daqueles ambíguos
que tu nuncas percebias. Toma cuidado, não apanhes sida.
Quando recebi a notícia da tua morte vi-me culpado por não ser
da tua onda, meti-me no avião e, tal como tínhamos combinado,
vesti-te a rigor e pus-te brilhantina, um livro em branco e uma caneta.
Quem sabe se na morte não terei tempo para ser escritor.
Helder Moura Pereira
Lágrima
Assírio & Alvim
2002
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