José Miguel Silva
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Cinco
A Sagrada Família comia connosco
cinco dias por mês. Ficava, sem ruído,
sobre a mesa da sala. Brilhava no escuro
a chama diminuta de uma lamparina.

Disputávamos a honra da moeda na ranhura
sob os pés de S. José. Espécie de slot-machine
cujo prémio era o regresso do pai,
a bofetada, o princípio da autoridade.

Anos depois, cabia ao filho mais velho
o cuidado de transportar a imagem
a casa do vizinho. Trezentos metros
a fugir das pedras e das bocas infiéis.

Até ao dia em que o pai ficou de vez,
para dar por terminada a brincadeira.
Agora, todas as frases eram rematadas
por pontos de exclamação, as portas

começavam a bater mais depressa.
Nenhum dos filhos levantava a cabeça
quando a mãe nos perguntava, ainda:
quem quer apostar na Sagrada Faml1ia?



José Miguel Silva
Vista para um Pátio
seguido de
Desordem
Relógio d´Água
2003
 

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